Os Mitos da Primavera


A primavera representa o renascimento da vida. Em quase todas as culturas, ela foi celebrada como o tempo da fertilidade, da abundância e dos recomeços.


Toda primavera começa muito antes da primeira flor desabrochar.


Enquanto se completa primaveras, nunca se envelhece...

A primavera possui um vínculo profundo com a renovação da vida e, por isso, encontra-se historicamente repleta de rituais e simbolismos, quase sempre ligados a deusas e deuses da fertilidade.

Quando os povos deixaram de ser nômades e passaram a cultivar a terra, naturalmente surgiram também as divindades da agricultura. Eram figuras responsáveis por assegurar colheitas abundantes, animais saudáveis e a continuidade da vida.

Assim, quando as primeiras civilizações começaram a registrar seus mitos, essas divindades já ocupavam um lugar de destaque.

Vale a pena conhecer algumas delas.

Você perceberá que muitos frutos, plantas e até objetos que ainda hoje simbolizam abundância nasceram dessas antigas histórias.


Deméter e Perséfone

Na Grécia Antiga, Deméter, deusa da agricultura, era venerada juntamente com sua filha Perséfone.

Deméter era uma das mais importantes divindades gregas, responsável pela fertilidade da terra e pelo crescimento das plantas.

Conta o mito que, ao percorrer diversas regiões da Grécia em busca da filha raptada, Deméter recompensava a hospitalidade dos povos ensinando-lhes a cultivar o trigo.

Perséfone, por sua vez, vivia dedicada a ajudar a mãe a amadurecer as colheitas.

Mas Hades, deus do Mundo Subterrâneo, apaixonou-se por ela e a levou para seu reino.

Desde então, Perséfone passa parte do ano no mundo subterrâneo e retorna à superfície para anunciar a chegada da primavera e do verão.

Seu retorno simboliza o renascimento da Natureza.


As Tríplices Mães Celtas

Na mitologia celta foram encontradas inúmeras esculturas representando uma tríade de deusas.

Vestindo longas túnicas, elas costumam portar cornucópias, cestos repletos de frutos ou crianças, muitas vezes revelando um dos seios como símbolo da maternidade.

São as Matres, ou Tríplices Mães.

Eram veneradas como divindades da cura, da fertilidade dos campos e da fecundidade das mulheres.


Freir e Fréia

Freir era o principal deus nórdico da fertilidade, associado também ao Sol e à chuva.

Sua irmã Fréia era a deusa do amor, do nascimento e das colheitas.

Segundo a tradição, ambos cavalgavam juntos: Freir montava um javali dourado e Fréia um javali de batalha.

Quando foram separados, das lágrimas douradas derramadas por Fréia nasceram as sementes do trigo.

Fréia tornou-se uma das mais poderosas deusas nórdicas, ligada às magias, à proteção das mulheres durante o parto e à liderança das famosas Valquírias.


Ashnan

Ashnan, deusa suméria dos grãos, foi criada juntamente com seu irmão Lahar, deus do gado e das ovelhas, para fornecer alimento e vestimentas aos deuses.

Filhos de Enlil, o deus supremo da Mesopotâmia, ambos aparecem em antigos poemas como responsáveis por trazer abundância ao mundo:

"Ao povo, eles trouxeram a abundância; à Terra, o sopro da vida. Dirigem os decretos de deus, multiplicam os bens da dispensa e enchem os paióis."


Existem inúmeros outros mitos ligados à fertilidade e sequer falamos aqui das grandes deusas da criação.

Como escreveu o antropólogo Joseph Campbell:

"Os mitos são sonhos públicos; os sonhos são mitos privados."

Este texto foi apenas um pequeno aperitivo para nos preparar, mitologicamente, para a chegada da primavera.

Que esta Primavera renove não apenas os jardins, mas também os espaços mais silenciosos de sua alma.

Aproveite-a como um culto interior ao deus que mora aí dentro.

Livre-se das pendências.

Das mágoas.


Das ansiedades.

Sonhe novos sonhos.

Crie seu próprio mito de primavera.

E, quem sabe, um dia você possa contar aos seus pequenos, com certa saudade, uma história que comece assim:

"Um dia, na Primavera de 2023..."


📚 Fontes

  • Mitologia — Editora Zahar.

  • Obras de Joseph Campbell sobre mitologia comparada.


Postagens mais visitadas deste blog

Árvore da Vida

Namaste