A Linguagem do Silêncio
Há sentimentos que nenhuma frase consegue traduzir. Talvez porque a vida tenha aprendido a falar muito antes de inventarmos as palavras.
Ainda bem que o mundo ainda possui seus silêncios.
É nos silêncios que a Natureza se move, que as raízes se espalham pela terra, que o Sol ilumina cada folha, que as flores desabrocham.
Nesses silêncios não há por que existirem palavras humanas.
Os sons da Natureza comunicam-se em harmonia com cada gota de chuva, com cada onda morrendo na praia.
Nosso planeta não precisa de palavras, explicações ou receitas para existir.
A Terra vive e respira, em completude, sem palavras.
Mas, se você é um ser humano, sente necessidade de falar, de usar suas linguagens para compartilhar conhecimentos e experiências.
Ainda assim, saberá que existe uma imensa gama de sentimentos e emoções que vivem sem palavras, sem códigos ou símbolos.
Apenas respiram e pulsam em sua alma.
Aliás, a palavra alma é tão repleta de significados que parece conter em si tantas outras palavras: vida, sonho, amor, morte.
Uma palavra contendo tantas outras...
Porque a alma sempre transborda.
E, para ela, palavras nunca são o bastante.
Nossa vida caminha pelo Tempo costurando histórias nem sempre contadas.
Somos um emaranhado de momentos que pensamos conhecer, de sentimentos e ações que formam nossa essência humana.
Definitivamente, não somos feitos apenas de palavras.
Existe um fio de vida em nós que transborda além de qualquer lógica ou racionalização.
As palavras podem delimitar ideias.
Podem organizar pensamentos.
Podem construir pontes entre as pessoas.
Mas não preciso delas para encher meus pulmões de ar.
Não preciso delas para correr e sentir o vento no rosto.
Não preciso delas para abraçar um bebê.
Não preciso sequer da palavra amor para sentir amor.
Aproprio-me das palavras apenas para contar minha história.
Mas elas não são minha história.
Cada vivência permanece registrada em algum lugar de nossas memórias, codificada não apenas por palavras, mas também pelas experiências dos nossos cinco sentidos.
Cheirar.
Provar.
Tocar.
Ouvir.
Olhar.
Palavras podem ser pronunciadas sem que nenhum desses sentidos seja realmente despertado.
Por isso, palavras não são o bastante.
Por mais que eu descreva, palavra por palavra, a imensa alegria do dia do meu casamento, a felicidade de olhar minha filha pela primeira vez ou a maravilhosa sensação de amamentá-la, nenhuma palavra será suficiente.
Por isso acredito na força e na existência de outras linguagens.
Linguagens nas quais nenhuma palavra é sequer necessária.
Na linguagem das flores, por exemplo.
Será que as rosas não falam?
Não me refiro ao simbolismo romântico das flores oferecidas aos apaixonados.
Refiro-me à linguagem silenciosa e definitiva de qualquer flor.
Sempre tão plena.
Sempre parecendo pronta para viver exatamente o seu destino.
Toda flor conhece seu destino.
Sem palavras.
Talvez porque a Natureza nunca tenha precisado delas para saber exatamente quem é.